Sociedade essa que o colocou a margem, pelo simples fato de ser quem é/era, foi a sociedade quem fez dele um bebum, fumante, motorista imprudente... Na verdade, ele nem dirigia de fato, só encostava o carro em algum lugar para beber e dormir. Aliás dormir era a coisa que ele mais fazia, dormir depois de algumas gotinhas de Rivotril sintetizava todo o seu vazio existencial.
Ia ao terapeuta uma vez a cada quinze dias, quem observava de fora achava que esses encontros deveriam ser mais frequentes, tinham razão. Esse cara de meia idade estava definhando, observava-se de longe, ele perder peso, sono e apetite; Se transformou num corpo vazio segurando um copo cheio.
Dali à poucos meses, faleceu, não de cirrose como todos podiam imaginar, nem de pulmão, nem de batida de carro... Um nó muito bem apertado terminava um laço numa corda que envolvia o seu pescoço; Um banquinho verde-água chutado e um corpo raquítico suspenso no ar. Os pés calçados de um salto alto vermelho verniz, rosto maquiado, cabelos com aplique, espartilho na cintura, por cima de um lindo vestido branco... Uma única música muito alta tocava repetidas vezes, dizia : "...Prazer e dor de ser mulher, por essa noite é o que ele quer".
A vizinhança não compreendia, na verdade, compreensão foi o que aquele ser nunca havia encontrado, nem no mundo, nem em si mesmo. Seu corpo não comportava quem ele realmente era, quando abriram seu armário, encontraram, lindos vestidos como aquele branco, lindos sapatos de salto como aquele vermelho, apliques de todas as cores e tamanhos, maquiagens como aquela no seu rosto sem vida.
No mesmo armário haviam ternos e sapatos sociais, usados por ele quando tinha um carreira como executivo, no fundo do armário achou-se um pequena fotografia de uma bela moça, tinha por volta 20 anos de idade e parecia feliz na foto, atrás escrito em caneta preta e grafia caprichada "Eu existo"
E havia existido, enclausurado dentro de si, e talvez sua morte fizesse alguma diferença, significasse algo. Quantas outras estavam levando uma vida de merda, com medo, reprimindo-se; Quantos tiveram o mesmo fim que ela...
No dia do seu velório a vizinhança decidiu que iriam enterrá-la com as roupas que ela havia escolhido para morrer, o mesmo sapato de salto vermelho verniz, o mesmo aplique no cabelo, o mesmo vestido branco com espartilho, a mesma maquiagem no rosto, pareceu respeitoso. Diferente da a atitude de seus pais e irmãos, que disseram só ir la se fosse para cuspir no túmulo, sua ex-esposa levou consigo seus dois filhos para se despedir do pai. E deitada dentro daquela caixa de madeira, vestida daquele jeito, ela parecia muito mais feliz e confortável do que estivera a vida inteira.
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