sábado, 27 de fevereiro de 2016

O quão cênico é o ato de regurgitar


*Talvez não tenha relação nenhuma, mas depois de escrever isso eu só consegui pensar nessa música, então se você achar conveniente pode dar play enquanto lê.



{..} Eu ando de uma lado para o outro, um incenso aceso na mão. Não tem uma rota específica, talvez a única rota seja a dos meus pensamentos, um sobrepondo o outro numa frequência absurda e estonteante. Meus pés imitam o pensar embaraçado e eu estou mais uma vez dançando aquela valsa bêbada.


Eu começo a sussurrar algumas palavras, eu sopro o incenso pra ver se ele queima mais rápido, eu entro na fina nuvem de fumaça perfumada, tem essência de mirra, seja lá o que isso for. A ansiedade é tanta que eu esqueci de pedir por proteção e essas coisas, não entoei nenhum mantra, nenhuma reza.

Estou tentando me manter calmo, estou calculando meus passos, estou usando os azulejos como régua pra medir o que tem de torto dentro de mim, falta pouco, alguém me diz, mas meus pés já estão cansados, meus olhos já estão cansados e tudo gira. Meu nariz está irritado, esse aroma é irritante, estou a ponto de regurgitar tudo.

Uma barragem se rompe dentro de mim, meus joelhos e as palmas das minhas mãos tocam o chão, meus pé finalmente descansarão? Tudo que estava represado sai, sai com força e pressão, ficam apenas os questionamentos de sempre, aqueles com os quais todos se preocupam mas ninguém acha realmente importante responder.

Me ponho de pé novamente, ainda cambaleante, sinto o novo vazio, aquele que eu irei me ocupar de preencher com todas as coisas que me entopem pra daqui à algumas semanas, ou meses quem sabe, passar pelo ritual do vômito novamente, espero que dessa vez eu já tenha terminado a playlist.


Antonio.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Canais maravilhosos para se inscrever no YouTube

Como alguém que bloga há uma ano e um pouquinho, mas lê blogs desde guri, eu já passei por aquele momento de ficar muito puto quando declararam que o vlog seria a morte do blog, NÃO É! Lidem com isso, o canal no youtube tem se tornado inclusive um espaço de expansão para blogueiros e vice versa.

Eu vou nesse post indicar alguns canais onde constantemente eu me permito ganhar uns minutinhos, tem muito conteúdo legal nas mais diversas esferas, desde muita utilidade pública até uns tutorial de make up.

Como alguém que pensa em breve fazer um puxadinho do blog do tonho lá no YouTube eu tô sempre ligado no que rola por lá e acompanho uma caralhada de canais.

Vamos lá!


*Você pode ir diretamente pros canais clicando nas imagens!

-TV Pe-dri-nha por Manie Bittencourt



É o canal da Manie Bittencourt, ela é blogueira, foi uma inspiração muito forte pra eu criar esse espaço aqui, e no canal dela ela já apresentou sua posição sobre diversos assuntos incluindo, greve de professores além de fazer umas resenhas maravilhosas de livros igualmente maravilhosos.
Quando debate algum tema polêmico ela sempre se preocupa em emitir de forma coesa e didática suas posições, ela também conta sobre a jornada dela como estudante e por isso que tanto o canal dela quanto o blog dela são uns dos meus lugares favoritos na internet! Recomendo com muito amor!
Tem o canal antigo também, te muito vídeo legal lá, e não tem como não indicar o blog dessa maravilhosa (Antiga Tv Pe-dri-nha/ Pe-dri-nha o blog)


-Afros e Afins por Nátaly Neri



Quando se trata de empoderamento, esse canal dá aula! A dona dele, a Nátaly é muito acessível e faz do canal um ambiente que embora muito politizado (resistir como negro em qualquer lugar do mundo é um ato político, principalmente aqui no Brasil) também muito leve. Aqueles toques leves de sarcasmo quando ela ironiza gente desocupada que vai lá no canal dela incomodar são um plus cômico nas argumentações super bem construídas da moça, pode me chamar de louco mas eu acho a voz dela idêntica a da Sandy, se está afim de se empoderar enquanto negrx e de quebra ver uns tutorias maravilhosos de maquiagem, cabelo, estética geral esse é o lugar!


-Cala a boca, Gaví por Gabriel Vinícius



Sabe uma pessoa que quando fica reflexiva quanto ao que acontece no mundo vai lá e grava um vídeo sem papas na língua nenhuma? Esse é o Gabriel, mas do que alguém que está produzindo um conteúdo cheio das "verdades absolutas" ele é alguém que está disposto a levantar questionamentos e trazer as pessoas pra uma discussão de forma saudável. Pra desconstruir os preconceitos que ainda restam, aprender um pouquinho sobre empatia e respeito as particularidades de cada indivíduo, vai lá ouvir o moço uns minutinhos.

-Bubarim por Bruno Miranda


Eu acho que é demais dizer que alguém nasceu pro youtube, mas tudo que esse rapaz documenta e lança nos canais dele me agrada muito e se ele não o fizesse faria falta. O canal principal é muito divertido, todas as esquetes montadas naquele esquema selfmade deixam as coisas ainda mais espontâneas, quando tô naquele dia de fúria onde eu tô problematizando tudo na internet eu vou lá no Bubarim dar umas risadas. Seja em qualquer um dois três canais dele você sempre vai encontrar um ambiente muito legal, vale muito a pena conferir!

Então essas são as minhas recomendações de canais pra acompanhar, esses são apenas alguns quem sabe eu não faço uma parte dois desse post, o youtube vem se tornando uma real revolução na produção de conteúdo pra web, tem pra todos os gostos, fazendo um bom garimpo você consegue tirar muita coisa proveitosa, se jogue!


Antonio.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O resgate

*Antes de começar a leitura desse conto, eu preciso contar que tem muita vivência real misturada a ficção. Eu adotei e adoto muitos animais de rua. Nesse relato ficcional você vai perceber que a adoção de animais de rua pode muitas vezes dar sentido e resgatar a vida de quem adota, faça uma boa leitura :)

Eu estava vivendo uma daquelas fases de turbulência, estava tudo dando errado e meus planos para sair daquele mar de merda soavam como piada até mesmo para mim.

Em um desses momentos, para ser mais exato, em uma dessas madrugadas onde eu estava vagando pela rua, ouvindo e usando um monte de besteira. Evitando de ir para casa pra não ter que encarar os problemas na cara e ouvi-los dizer o quanto eu estava decepcionando, eu o encontrei.

Numa primeira olhada, avistei apenas uma mochila preta velha e surrada jogada no acostamento, por curiosidade abaixei e olhei o que tinha dentro, para minha surpresa encontrei um par brilhante e assustado de olhos.

Ainda curioso dei uma sacudida na mochila, pra ver se aquele ser ali dentro perdia a timidez e colocava a cabeça pra fora, não funcionou.

Então eu percebi que independente do que fosse estava com mais medo de mim do que que eu dele, coloquei a mão na mochila e tirei de lá um pequeno, peludo e amedrontado corpo, era um gatinho.

Um filhote abandonado pra morrer esmagado pelas rodas dos carros que não paravam de passar. Ironicamente era como eu me sentia quando por impulso peguei-o com apenas uma mão e comecei a caminhar.

Só eu sei o quanto eu oscilei nessa decisão depois de alguns passos, não foram poucas as vezes que pensei no quão mais fácil seria deixá-lo onde o encontrei e seguir meu caminho, afinal eu nem sabia direito pra onde ir depois daquela discussão...

Olhei no relógio e pela hora mesmo que eu corresse de onde eu estava, eu só conseguiria chegar em casa pela manhã. Eu estava cheirando esquisito e com a pior cara possível, mas isso já era bem comum, o agravante estava no visitante (certamente indesejado) que eu tinha comigo.

Como eu previ, caminhei da três às cinco até chegar em casa, chegando na porta procurei pela chave reserva embaixo do capacho e ela não estava lá, o que era um sinal claro de que minha mãe continuava irritada, mas sem problemas, pus o gatinho na mochila e pulei o muro ao lado da casa e subi para o meu quarto, foi até melhor não entrar pela porta da frente, eu não estava preparado pra ser jogado pela janela com gato e tudo.

Chegando no quarto pus o bichano no chão e o observei, era tão mínimo... Em compensação fazia barulho pra caramba, ainda bem que todos em casa tinham sono pesado, matutei durante algum tempo sobre o porque daquele miado fino e persistente, concluí que talvez ele devesse estar sentindo algo.

Coloquei-o de barriga pra cima sob duros protestos do mesmo. Examinei-o da melhor forma que consegui e ele parecia perfeito, exceto por um pouco de chiclete grudado nas patas dianteiras, mas isso não era motivo para tanto escândalo.

Me toquei que quando minha irmã era menor acordava chorando no meio da noite com fome, minha mãe fazia uma mamadeira, ela mamava e tudo ficava em paz. Então procurei por alguma daquelas velhas mamadeiras no armário, encontrei uma, mornei um pouco de leite e levei para o quarto chegando lá ofereci para o felino que faminto sugou todo conteúdo da mamadeira.

Conferi mais uma vez o relógio e percebi que não fazia sentido deitar pra dormir, minha mãe costumava acordar cedo e logo estaria invadindo o meu quarto para dar o velho sermão matinal, que sempre era mais longo depois de uma briga. Se ela entrasse e encontrasse um gatinho no meio do chão do quarto, sabe deus por quanto tempo ela iria falar.

Olhei em volta procurando por algum lugar para escondê-lo e finalmente aquela pilha de roupa, que estava sendo cultivada desde três meses atrás quando minha mãe decidiu parar de fazer qualquer coisa pra mim ( exceto me acordar cedo porquê isso ela sabia que eu odiava) serviu para alguma coisa, o bichano estava de barriga cheia, um ninho fofo de roupas sujas era o lugar perfeito para uma soneca, dito e feito! Assim que o coloquei lá o danado espreguiçou-se e dormiu.

Como de costume, ouvi os passos da robusta mulher no corredor, pulei depressa na cama e me cobri até a cabeça e aguardei pelo momento em que ela iria adentrar furiosamente o quarto, mas isso não aconteceu.

Fiquei preocupado, aquela estava sendo de fato uma manhã anormal. Desci as escadas correndo e a encontrei sentada no sofá com uma xícara fumegante de café nas mãos, estava com aquele sorriso de quem roubou doce antes da festa começar sem ninguém perceber, antes que eu conseguisse abrir a boca, ela disse sem olhar pra mim - Não deveria dormir de sapatos, não é você que lava a roupa de cama! Respondi agilmente - Nem a senhora. Ela virou-se pra mim e sacudiu uma nota de vinte reais dizendo - Querido, eu quero que você vá na barbearia e corte o cabelo está bem?! Ótimo então.

Terminei de descer as escadas e peguei a nota meio desconfiado, mas nenhum duro convicto rejeita dinheiro sendo balançado na sua frente. Mas mantive a postura e perguntei o porquê daquilo, sem me olhar tomou um gole grande de café e disse - De hoje em diante você vai trabalhar com seu pai. Antes que eu pudesse protestar ela completou - Talvez dessa forma, ocupando seu tempo com algo útil, não te sobrem energias para fazer suas besteiras, eu não quero ouvir reclamações, inclusive você já pode ir. Fiz menção de dar continuidade a discussão mas ela me encarou daquele jeito que as mães fazem, foi quando eu percebi que ela estava me dando um ultimato, saí da sala batendo os pés.

Andando na rua percebi que já não cortava os cabelos fazia tanto tempo que não me lembrava onde ficava a barbearia, saquei um cigarro do bolso interno da jaqueta e pus na boca, percorri todo o meu corpo com as mãos procurando pelo isqueiro, nada de achar, lembrei que poderia ter ficado na mochila, a mesma mochila que horas antes havia abrigado um gatinho.

Naquele momento eu percebi que o coitado corria perigo, pois minha irmã costumava mexer em minhas coisas quando eu não estava pra procurar deus sabe o quê. Eu desconfiava que minha mãe mandava ela procurar algo semelhante a drogas nas minhas coisas, não foram poucas as vezes em que minhas cartelas de Tylenol sumiram...

Entrei correndo em casa e subi as escadas, peguei minha irmã no flagra, mão na maçaneta pronta para entrar onde adesivos na porta claramente proibiam a entrada dela. Ela era uma daquelas menininhas insuportáveis de nove anos que se acha super crescida e age como a personagem má do High School Musical. Como toda menininha mimada ela consegue tudo no grito, principalmente com meu pai que morre de amores por ela, dessa vez não foi diferente,  segurou o braço com a mão e gritou, em menos de 10 segundos meu pai apareceu com a camisa social meio abotoada perguntando o que estava acontecendo.

Com os olhos marejados e um tom choroso muito convincente ela disse que eu havia batido nela, meu pai se agachou e disse que ia ficar tudo bem que era pra ela esperar por ele no quarto dela, rapidamente o pranto desapareceu da cara dela, virou-se e saiu saltitando.

Foi a vez do meu pai se virar contra mim, girar a maçaneta e me empurrar pra dentro do quarto. Me mandou sentar e começou a falar

- Já te disse que não deve ficar importunando sua irmã, ela está passando por um fase hormonal difícil! Ele percebeu que eu estava segurando o riso e disse com firmeza - Olha, já passou da hora de você levar as coisas a sério, a escola acabou, você não foi pra faculdade e vai começar a trabalhar comigo no escritório e eu preciso de um homem pra me ajudar não um moleque!

Ele já ia saindo a passadas largas e firmes do quarto quando um miado fino dissipou a nuvem de tensão - O que foi isso? Perguntou meu pai com desconfiança -N- Nada, deve ter sido o meu celular. Gaguejei para responder o que o irritou fazendo-o vir pra cima de mim mas antes que ele conseguisse me alcançar, um bola de pelos despencou do alto da pilha de roupas sujas.

Por um minuto fiquei paralisado, até que o gato miou mais uma vez. Meu pai ficou tão furioso que os olhos saltaram, antes que eu pudesse explicar ele disse, -Seja lá o que for isso, dê um jeito rápido! E saiu batendo a porta.

Dediquei aquele dia inteiro ao meu novo amigo, faltei naquele que deveria ser meu primeiro dia trabalhando com meu pai, mas fiz coisas de fato muito importantes, como dar um nome para aquela bola de pelos, resolvi chamá-lo de Legolas, assim como o elfo de Senhor dos anéis.

Assim passaram-se, semanas, eu não fui trabalhar com meu pai, o Legolas me ocupava sem me irritar, apesar das constantes ameaças de despejo que ambos sofríamos diariamente, eu finalmente tinha um objetivo, protegê-lo.

Foi naquele final de semana que as coisas começaram a mudar, aconteceu uma feirinha de adoção no meu bairro e na faixa dizia que era a terceira feira anual de adoção, eu não fazia ideia de que aquilo aconteceu praticamente do lado da minha casa nos últimos dois anos, eu entrei observando tudo, alguns filhotes agitados num cercado, outros animais mais velhos descansavam, foi quando um rapaz de sobrancelhas grossas me abordou,
-Hey, você é da vizinhança não é?! Fiz que sim  com a cabeça. -Então, nós estamos precisando de ajuda com uns sacos de ração, você poderia...

[CONTINUA]

Antonio.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Serpenteia serpentina

Houveram vezes em que eu só consegui chorar.

Algumas vezes o corpo se recusou a obedecer a mente e vice versa.

Na primeira vez percebi que as luzes, os sons e os odores me incomodavam.

De vez em quando eu evito as pessoas que conheci lá.

Quase sempre as pessoas de lá me evitam.

Algumas marcas no pescoço, o suor que une roupa e pele.

Os pés que cansados caminham seguindo o fluxo, os punhos que em riste ferem.

O sorriso e o belo em evidência fazem a perfeita contradição.

Coração, carne e cerveja, eu sei o que ponho na mesa e desse banquete eu vou me servir.

A alegria é truculenta, se tu não aguenta não vá entrar.

Antonio.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

E se eu fizesse economia?

Eu tenho 18, quando se tem essa idade esperam que você decida que rumo dar a sua vida, seja por meio de uma vaga na universidade, com um emprego, ou qualquer coisa que te ponha em algum lugar fazendo algo, te torne "útil".

No começo de Janeiro saiu o resultado da chamada regular do SISU, eu fui selecionando no Bacharelado Interdisciplinar em Artes e adivinha, isso não foi comemorado por ninguém só por mim e alguns amigos, em esfera familiar não foi um fato tão grandioso pra ser comemorado.

Alguns "parabéns" sem muita convicção, na maioria das vezes as pessoas perguntaram "Tá, mas o que você vai fazer com isso?" Acredito que não é por maldade e sim por curiosidade.

Curioso também é fato de que se eu tivesse passado em Economia, Direito, Engenharia, Medicina a reação seria completamente diferente. Isso me fez refletir sobre como as pessoas não sabem qual o papel do artista na sociedade.

Você é condicionado por algum motivo a pensar que ter alguém das artes na família é algo muito absurdo e distante. Todo mundo acha muito utópico alguém que sai da periferia, de colégio público estudar artes. É como se dissessem Arte não é coisa pra pobre, cê tem que fazer algo pra emergir.

Eu sou muito feliz por ser bem resolvido com o que eu quero, mas machuca de leve você não ser abraçado por sua mãe ao contar que vai entrar na universidade, eu diria até, desestimulante. Talvez eu não devesse pensar muito sobre isso, porque claramente me faz ficar triste, mas eu vou ter que me acostumar com o fato de que ao longo de toda a graduação e até mesmo durante grande parte da minha vida profissional, as pessoas não vão me levar a sério e sugerir que eu faça algo pra ter "estabilidade financeira"

Se eu fizesse economia? Eu seria infeliz pra caralho, não que não seja possível ser feliz sendo um economista, é possível. Só não é uma possibilidade pra mim.

Antonio.