Eu vi um Antonio ainda mais jovem, pra ser mais exato com 14 anos de idade, que assim que entrou no ensino médio saiu em busca de estágio, eu me vi saindo daquela sala comercial naquele grande prédio no bairro do Comércio aqui em Salvador, no meu bolso estavam os primeiros 300 reais conquistados por mérito e trabalho. Lembro de andar e parar diante das vitrines de uma padaria da esquina, parei e realizei aquele que tinha sido meu desejo todos os dias naquele primeiro mês de trabalho, comprei o mais bonito empadão, foi como comer um pedaço de nuvem, eu queria levar no mínimo mais cinco pra comer em casa, porém aquele dinheiro já tinha outros compromissos.
Respondida a pergunta de minha mãe, ela me relatou como foi pra ela essa mesma experiência, ela tinha por volta de 16 anos e tomava conta de um casal de bebês chineses, ela conta que assim que pegou o primeiro pagamento, realizou aquele que era o maior sonho de uma adolescente, uma das filhas mais velhas de uma prole de 8, comeu a primeira maçã inteira sozinha.
Após contar nostálgica com foi a experiência dela, ela lembrou que minha avó também tinha um sonho de consumo, mais simples que o dela e infinitamente mais simples que o meu, minha vó desejava conseguir comer um ovo inteiro sozinha, um simples ovo.
Eu terminei de me arrumar pra sair, e durante todo o dia aquela reflexão feita em conjunto com minha mãe me acompanhou, não pude deixar de perceber que mesmo pertencentes a gerações diferentes, eu,minha mãe e minha vó, temos algo em comum, o desejo de realizar desejos.
Pobres, fomos, somos e seremos, pobres de dinheiro no caso, os sonhos que nós temos vão além de simples sonhos de consumo, vão além de ovos, maçãs e empadões. Mas quantos sonhos não foram, ainda são e serão frustrados durante gerações porque apenas são colocados ao alcance de nossos braços bens de consumo?
Porque minha vó estava trabalhando e não estudando desde tão nova? E minha mãe porque ela estava cuidando dos filhos de outras pessoas na idade em que ela deveria estar cuidando de si mesma? E eu, porque eu tive que estar trabalhando desde cedo ao invés de me dedicar integralmente aos meus estudos?
O que está acima disso tudo? O que essas coisas tem em comum? Não é suspeito que essas coisas se repitam na mesma família? Eu sei que minha mãe tem sonhos maiores que uma maçã, eu sei que minha vó tem sonhos maiores que um ovo e eu tenho sonhos maiores que um empadão.
E foi difícil pra elas levar a vida, ter dignidade perante a sociedade tem um preço alto e infelizmente para as pessoas pobres esse preço tem sido os próprios sonhos, eu quero ir além do que aqueles que vieram antes de mim foram, não pra inferiorizá-los mas para mostrá-los que valeu a pena e que eu lamento que eles tenham tido que fazer tamanho sacrifício, mas valeu a pena pois eu quebrei esse ciclo vicioso e abri caminho para os que virão depois de mim.
Sonhos não são produtos e nem o tempo consome os sonhos, a saúde, a sanidade e a esperança das pessoas não podem ser colocadas à venda, eu sei que a minha perseverança significa força e força para os meus, para aqueles que vieram do mesmo lugar que eu, eu resisto porque quero que eles saibam que podem ir a qualquer lugar que quiserem, que podem conquistar mais que ovos, maçãs e empadões.
Antonio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário