Há três anos atrás isso começou, e no começo ele era apenas o novo cara que estava saindo com minha mãe, mas bastaram alguns meses de namoro para que revelasse a sua índole monstruosa, começou com um roçar de mão na minha coxa, ele me disse " se contar algo pra tua mãe, mato você e ela" na época com oito anos de idade, tive que optar entre minha integridade física e psicológica e a vida de minha mãe.
Foi muito doloroso vê-la se envolver emocionalmente com aquele monstro, mas eu estava nas suas mãos, eu tentava avisa-la de forma sútil, mas ele me cercava e ameaçava, e ao perceber que me deixava a sós com minha mãe tempo demais, tempo suficiente para que contasse a ela sobre os abusos, fez a proposta de casamento. Eu entrei em desespero, persegui minha mãe até no banheiro para tentar contar, mas foi inútil ela estava deslumbrada com as coisas do casamento, eu iria entrar de daminha de honra...
Meu ultimo esforço para evitar o casamento e desmascará-lo foi quando o padre perguntou se alguém tinha objeção contra a união, fiz menção de levantar me braço, mas ele olhou para mim de forma que parecia enxergar o tamanho do medo que eu sentia, não dele, mas de perder minha mãe, e me faltou coragem. Eles não tiveram lua de mel, pois eu não tinha com quem ficar, afinal, nós não tínhamos família por perto, só uma tia já idosa que vivia em outro estado, então minha mãe optou por ficar em casa, e tirar uma semana de folga para que "curtíssemos" os três juntos.
Ele me culpou muito por não ter tido lua de mel, e toda madrugada durante aquela semana ele vinha até meu quarto silenciosamente e me machucava, eu tinha que esconder todos os hematomas e fingir felicidade, porque se minha mãe notasse alguma marca ou diferença no meu comportamento ele dizia que iria matá-la durante o sono e depois viria atrás de mim.
Foi assim durante os últimos três anos, criei estratégias, para evitá-lo, comecei a ir dormir na casa de amigas da escola, mas haviam vezes em que ele ia me buscar no meio da noite alegando que minha mãe estava sentindo saudades, e nessas vezes eu era obrigada a sentir minha inocência escorrer do meu corpo invadido por aquele porco.
Mudei de comportamento, me fechei pra tudo, eu tinha vergonha de mim mesma, eu não me sentia digna de estar perto das outras crianças, eu era suja. Tudo culpa daquele monstro, mas quando minha mãe notava alguma diferença ele ressaltava que isso era amadurecimento, que eu era uma garotinha muito adulta pra minha idade e minha mãe achava isso bom, não percebia meus olhos gritando por socorro em completo silêncio.
Prestes a fazer doze anos, arquitetei um plano para que fosse pego no flagra; minha mãe sempre largava do trabalho depois dele, nesse dia iria sair mais cedo, consegui convencê-la a surpreende-lo, chegando mais cedo em casa sem avisá-lo. Então quando chegou em casa ele veio ao meu quarto, como costumava fazer, alguns poucos minutos depois minha mãe estava chegando na porta de casa, ele ouviu o barulho da porta, e me disse pra não gritar me mostrou um canivete mais uma vez ameaçando-me.
Começou a vestir as roupas apressado, eu vi meu plano ir por água abaixo quando ele respondeu o chamado da minha mãe que estava subindo as escadas, não resisti e gritei "Socorro mãe! vem aqui no meu quarto rápido!" ele se virou pra mim, olhou para o canivete que havia repousado no criado-mudo para vestir as calças, quando fez menção de pegá-lo, minha mãe invadiu a porta do quarto e antes que ela completasse a frase " O que está acontecendo aqui" ele se jogou contra ela e agarrou pelo pescoço, Dizendo : - Eu não te disse pra ficar quieta! Eu te avisei... Se tu contasse pra tua mãe, morria você e ela. Mas você não quis me ouvir agora, você vai ver sua mãe morrer na sua frente, por sua culpa.
Minha mãe em estado de choque não parava de perguntar aos berros o que estava acontecendo, o filho da mãe ainda teve coragem de dizer que eu o seduzia, que ele era homem e não se segurou, minha mãe endureceu as feições e ficou pálida, deixou apenas alguma lágrimas silenciosas caírem, ele continuou, "Ela! Ela estragou tudo amorzinho! Estava tudo tão perfeito, mas ela escolheu armar esse circo, agora, eu não quero passar nenhum segundo na cadeia..." Ele se preparava pra continuar o seu discurso podre, quando eu não sei explicar como, minha mãe o atingiu e mandou que eu corresse e buscasse ajuda.
Oscilei um pouco pois não queria deixá-la só com aquele monstro mais ela o desarmou e disse, "Vai!", saltei por cima do porco que agonizava no chão, desci as escadas, ouvi minha mãe gritar e quis voltar e ajudá-la mas sabia que sozinha seria uma presa fácil, então continuei a descida apressada.
Saí pela porta apressada e gritando o mais alto que eu conseguia e rapidamente algumas pessoas da vizinhança saíram às portas, uma mulher veio ao meu encontro com uma manta e me cobriu, não havia notado mas havia saído apenas com a roupa de baixo, me senti envergonhada mas ela se abaixou ao meu lado e me perguntou o que estava acontecendo, tentei conter as lágrimas e expliquei o que estava acontecendo dentro da minha casa, ela sacou o telefone e ligou pra polícia, o filho dela e o marido entraram na minha casa e encontraram minha mãe no chão, ensanguentada, o monstro havia fugido pela janela.
Por sorte a polícia não demorou a chegar e ela foi preso não muito longe de casa, minha mãe foi socorrida, e depois de uma semana na UTI, ela está em um quarto, quando me viu ficou se desculpando por não ter notado antes, porém eu só me calei porque não queria perdê-la e ela quase morreu pra me proteger, portanto não existe débito.
Estamos mais unidas que nunca e aquele porco foi sentenciado, vai pagar pelo que fez, nós vamos reconstruir nossas vidas, continuar e trabalhar para que coisas como essas que me aconteceram não aconteçam mais para nenhuma menina ou menino.
Algumas feridas ainda estão abertas e vão demorar pra cicatrizar eu sei, mas eu sei que as cicatrizes vão me fazer mais forte, eu e minha mãe estamos estudando a criação de uma ONG para ajudar outras pessoas que estão passando por situações parecidas com a que nós vivemos.
No final acabou tudo bem, mas eu queria que nunca tivesse acontecido.
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Violência doméstica contra mulher e abuso sexual contra crianças acontecem a todo momento, não são raras as vezes em que os algozes estão dentro de casa, não podemos nos calar e devemos denunciar. ligue 180 e denuncie anonimamente, aqui pode ser só ficção mas lá fora é real não se omita.
Antonio.
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