*Antes de começar a leitura desse conto, eu preciso contar que tem muita vivência real misturada a ficção. Eu adotei e adoto muitos animais de rua. Nesse relato ficcional você vai perceber que a adoção de animais de rua pode muitas vezes dar sentido e resgatar a vida de quem adota, faça uma boa leitura :)
Eu estava vivendo uma daquelas fases de turbulência, estava tudo dando errado e meus planos para sair daquele mar de merda soavam como piada até mesmo para mim.
Em um desses momentos, para ser mais exato, em uma dessas madrugadas onde eu estava vagando pela rua, ouvindo e usando um monte de besteira. Evitando de ir para casa pra não ter que encarar os problemas na cara e ouvi-los dizer o quanto eu estava decepcionando, eu o encontrei.
Numa primeira olhada, avistei apenas uma mochila preta velha e surrada jogada no acostamento, por curiosidade abaixei e olhei o que tinha dentro, para minha surpresa encontrei um par brilhante e assustado de olhos.
Ainda curioso dei uma sacudida na mochila, pra ver se aquele ser ali dentro perdia a timidez e colocava a cabeça pra fora, não funcionou.
Então eu percebi que independente do que fosse estava com mais medo de mim do que que eu dele, coloquei a mão na mochila e tirei de lá um pequeno, peludo e amedrontado corpo, era um gatinho.
Um filhote abandonado pra morrer esmagado pelas rodas dos carros que não paravam de passar. Ironicamente era como eu me sentia quando por impulso peguei-o com apenas uma mão e comecei a caminhar.
Só eu sei o quanto eu oscilei nessa decisão depois de alguns passos, não foram poucas as vezes que pensei no quão mais fácil seria deixá-lo onde o encontrei e seguir meu caminho, afinal eu nem sabia direito pra onde ir depois daquela discussão...
Olhei no relógio e pela hora mesmo que eu corresse de onde eu estava, eu só conseguiria chegar em casa pela manhã. Eu estava cheirando esquisito e com a pior cara possível, mas isso já era bem comum, o agravante estava no visitante (certamente indesejado) que eu tinha comigo.
Como eu previ, caminhei da três às cinco até chegar em casa, chegando na porta procurei pela chave reserva embaixo do capacho e ela não estava lá, o que era um sinal claro de que minha mãe continuava irritada, mas sem problemas, pus o gatinho na mochila e pulei o muro ao lado da casa e subi para o meu quarto, foi até melhor não entrar pela porta da frente, eu não estava preparado pra ser jogado pela janela com gato e tudo.
Chegando no quarto pus o bichano no chão e o observei, era tão mínimo... Em compensação fazia barulho pra caramba, ainda bem que todos em casa tinham sono pesado, matutei durante algum tempo sobre o porque daquele miado fino e persistente, concluí que talvez ele devesse estar sentindo algo.
Coloquei-o de barriga pra cima sob duros protestos do mesmo. Examinei-o da melhor forma que consegui e ele parecia perfeito, exceto por um pouco de chiclete grudado nas patas dianteiras, mas isso não era motivo para tanto escândalo.
Me toquei que quando minha irmã era menor acordava chorando no meio da noite com fome, minha mãe fazia uma mamadeira, ela mamava e tudo ficava em paz. Então procurei por alguma daquelas velhas mamadeiras no armário, encontrei uma, mornei um pouco de leite e levei para o quarto chegando lá ofereci para o felino que faminto sugou todo conteúdo da mamadeira.
Conferi mais uma vez o relógio e percebi que não fazia sentido deitar pra dormir, minha mãe costumava acordar cedo e logo estaria invadindo o meu quarto para dar o velho sermão matinal, que sempre era mais longo depois de uma briga. Se ela entrasse e encontrasse um gatinho no meio do chão do quarto, sabe deus por quanto tempo ela iria falar.
Olhei em volta procurando por algum lugar para escondê-lo e finalmente aquela pilha de roupa, que estava sendo cultivada desde três meses atrás quando minha mãe decidiu parar de fazer qualquer coisa pra mim ( exceto me acordar cedo porquê isso ela sabia que eu odiava) serviu para alguma coisa, o bichano estava de barriga cheia, um ninho fofo de roupas sujas era o lugar perfeito para uma soneca, dito e feito! Assim que o coloquei lá o danado espreguiçou-se e dormiu.
Como de costume, ouvi os passos da robusta mulher no corredor, pulei depressa na cama e me cobri até a cabeça e aguardei pelo momento em que ela iria adentrar furiosamente o quarto, mas isso não aconteceu.
Fiquei preocupado, aquela estava sendo de fato uma manhã anormal. Desci as escadas correndo e a encontrei sentada no sofá com uma xícara fumegante de café nas mãos, estava com aquele sorriso de quem roubou doce antes da festa começar sem ninguém perceber, antes que eu conseguisse abrir a boca, ela disse sem olhar pra mim - Não deveria dormir de sapatos, não é você que lava a roupa de cama! Respondi agilmente - Nem a senhora. Ela virou-se pra mim e sacudiu uma nota de vinte reais dizendo - Querido, eu quero que você vá na barbearia e corte o cabelo está bem?! Ótimo então.
Terminei de descer as escadas e peguei a nota meio desconfiado, mas nenhum duro convicto rejeita dinheiro sendo balançado na sua frente. Mas mantive a postura e perguntei o porquê daquilo, sem me olhar tomou um gole grande de café e disse - De hoje em diante você vai trabalhar com seu pai. Antes que eu pudesse protestar ela completou - Talvez dessa forma, ocupando seu tempo com algo útil, não te sobrem energias para fazer suas besteiras, eu não quero ouvir reclamações, inclusive você já pode ir. Fiz menção de dar continuidade a discussão mas ela me encarou daquele jeito que as mães fazem, foi quando eu percebi que ela estava me dando um ultimato, saí da sala batendo os pés.
Andando na rua percebi que já não cortava os cabelos fazia tanto tempo que não me lembrava onde ficava a barbearia, saquei um cigarro do bolso interno da jaqueta e pus na boca, percorri todo o meu corpo com as mãos procurando pelo isqueiro, nada de achar, lembrei que poderia ter ficado na mochila, a mesma mochila que horas antes havia abrigado um gatinho.
Naquele momento eu percebi que o coitado corria perigo, pois minha irmã costumava mexer em minhas coisas quando eu não estava pra procurar deus sabe o quê. Eu desconfiava que minha mãe mandava ela procurar algo semelhante a drogas nas minhas coisas, não foram poucas as vezes em que minhas cartelas de Tylenol sumiram...
Entrei correndo em casa e subi as escadas, peguei minha irmã no flagra, mão na maçaneta pronta para entrar onde adesivos na porta claramente proibiam a entrada dela. Ela era uma daquelas menininhas insuportáveis de nove anos que se acha super crescida e age como a personagem má do High School Musical. Como toda menininha mimada ela consegue tudo no grito, principalmente com meu pai que morre de amores por ela, dessa vez não foi diferente, segurou o braço com a mão e gritou, em menos de 10 segundos meu pai apareceu com a camisa social meio abotoada perguntando o que estava acontecendo.
Com os olhos marejados e um tom choroso muito convincente ela disse que eu havia batido nela, meu pai se agachou e disse que ia ficar tudo bem que era pra ela esperar por ele no quarto dela, rapidamente o pranto desapareceu da cara dela, virou-se e saiu saltitando.
Foi a vez do meu pai se virar contra mim, girar a maçaneta e me empurrar pra dentro do quarto. Me mandou sentar e começou a falar
- Já te disse que não deve ficar importunando sua irmã, ela está passando por um fase hormonal difícil! Ele percebeu que eu estava segurando o riso e disse com firmeza - Olha, já passou da hora de você levar as coisas a sério, a escola acabou, você não foi pra faculdade e vai começar a trabalhar comigo no escritório e eu preciso de um homem pra me ajudar não um moleque!
Ele já ia saindo a passadas largas e firmes do quarto quando um miado fino dissipou a nuvem de tensão - O que foi isso? Perguntou meu pai com desconfiança -N- Nada, deve ter sido o meu celular. Gaguejei para responder o que o irritou fazendo-o vir pra cima de mim mas antes que ele conseguisse me alcançar, um bola de pelos despencou do alto da pilha de roupas sujas.
Por um minuto fiquei paralisado, até que o gato miou mais uma vez. Meu pai ficou tão furioso que os olhos saltaram, antes que eu pudesse explicar ele disse, -Seja lá o que for isso, dê um jeito rápido! E saiu batendo a porta.
Dediquei aquele dia inteiro ao meu novo amigo, faltei naquele que deveria ser meu primeiro dia trabalhando com meu pai, mas fiz coisas de fato muito importantes, como dar um nome para aquela bola de pelos, resolvi chamá-lo de Legolas, assim como o elfo de Senhor dos anéis.
Assim passaram-se, semanas, eu não fui trabalhar com meu pai, o Legolas me ocupava sem me irritar, apesar das constantes ameaças de despejo que ambos sofríamos diariamente, eu finalmente tinha um objetivo, protegê-lo.
Foi naquele final de semana que as coisas começaram a mudar, aconteceu uma feirinha de adoção no meu bairro e na faixa dizia que era a terceira feira anual de adoção, eu não fazia ideia de que aquilo aconteceu praticamente do lado da minha casa nos últimos dois anos, eu entrei observando tudo, alguns filhotes agitados num cercado, outros animais mais velhos descansavam, foi quando um rapaz de sobrancelhas grossas me abordou,
-Hey, você é da vizinhança não é?! Fiz que sim com a cabeça. -Então, nós estamos precisando de ajuda com uns sacos de ração, você poderia...
[CONTINUA]
Antonio.